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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

DIÁRIA


acorde bem, acorde
que namorado já vem
milorde — aguarda-nos
a noite sentinela, a cama
aguada pela espera dos corpos
cobertos com a esfera de estrelas

quinta-feira, 5 de março de 2009

INSPIRAR

Minha inspiração acabou por hoje
Talvez para sempre
(talvez não)

Só o molho de alho
Ou o muro de arrimo
— ou o laço do cadarço
Farão, amanhã
(talvez amanhã)
Valer a pena respirar

quarta-feira, 11 de abril de 2007

GRÁFICO AUTOPSÍQUICO (+ interseções)


GRÁFICO AUTOPSÍQUICO
(a Fernando Pessoa)

Fingido em si mesmo escreve
O poeta fragmentado
Por dor tal que não se atreve
Tocar seu eu eclipsado.

O que cala sua poesia,
Pelo bem deles, refletem
Uma e outra imagem fria —
Dentro em si, sem cor, competem.

O caminho é torturante
Duplo círculo mal feito
Sem tamanho, sem quadrante,
Um pulsar fora do peito.


INTERSEÇÕES DESEJÁVEIS HOMENAGEANTES
(com Fernando Pessoa, ortônimo: "Autopsicografia")

I.

O poeta é um fingidor: fingido em si mesmo escreve;
Finge tão completamente o poeta fragmentado
Que chega a fingir que é dor, por dor tal que não se atreve,
A dor que deveras sente tocar seu eu eclipsado.

E os que lêem o que escreve, o que cala sua poesia,
Na dor lida sentem bem, pelo bem deles, refletem
Não as duas que ele teve, uma e outra imagem fria,
Mas só as que eles não têm dentro em si, sem cor, competem.

E assim nas calhas de roda o caminho é torturante:
Gira, a entreter a razão, duplo círculo mal feito
Esse comboio de corda sem tamanho, sem quadrante,
Que se chama coração um pulsar fora do peito.

II.

Fingido em si mesmo escreve — o poeta é um fingidor —
O poeta fragmentado finge tão completamente,
Por dor tal que não se atreve, que chega a fingir que é dor
Tocar seu eu eclipsado a dor que deveras sente.

O que cala sua poesia e os que lêem o que escreve
Pelo bem deles refletem; na dor lida sentem bem,
Uma e outra imagem fria — não as duas que ele teve
Dentro em si, sem cor, competem — mas só as que eles não têm.

O caminho é torturante e assim nas calhas de roda,
Duplo círculo mal feito gira, a entreter a razão,
Sem tamanho, sem quadrante, esse comboio de corda
Um pulsar fora do peito que se chama coração.




(Imagem de James Walsh in deviantArt)

sexta-feira, 1 de abril de 2005

EX CRETĀ


(Incitatus a Διεγο Παληόλογος in opera sua laterales: de prospectu obliquo)

Oiço a rede
e os gritos pescadores
costurando ondas de θαλάσσα (thalássa)

Acontece sempre
quando saem de mim
essas mulheres de Creta

Farfalhar dúbio
das que têm coragem
de nos mostrar as cobras

Da minha costela mais dura
nasce de mim essa mulher
que, apartada,
me chama de
vasto.

(mais mulheres de Creta)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2005

Em resposta...



... ao Marco Figueiredo em um post seu.

a vida é uma puta
pagamo-lhe bem e ela,
às vezes não tão fajuta,
nos dá com alegria de menina...

dessas meninices galhofeiras
me foi dada a alegria
de poder dividir, à revelia,
qualquer fagulha de estrela

não preciso escrever nada,
nem rimar nem ser arguto
basta sorrir e olhar nos olhos
do presente insubstituto

sábado, 6 de novembro de 2004

NUBIA SE VAE


E Nubia, onde está ella?

Foi-se Nubia p'ra perto do raso das aguas
Pedir a Mar-ia que a levasse, então, embora
P'ro baptismo de sal

E Nubia assim se foi mesmo
Deram-lhe de vez a passagem
Alguém lha deu de vespera

Caiu o bilhete da janela
E Nubia o pegou, aberta:
Violou-o destarte

Nada azêdo nem fosco
Lá estava escripto
Mas as palavras dansam

Pediu soccorro
Palavras maldictas
Suffocaram sua voz

Deus a queria
fora dali,
que se fôra

Alma torta
Lampada morta
Deus disse:

— Vae-te, Nubia,
Não tens luz
Busca

Deus notou
Dúvida atroz
Empurrou-a

O mar chama
pois Nubia
não

E dahi
o mar
a
pagou.

sexta-feira, 29 de outubro de 2004

PENSAMENTOS INCOMPLETOS em mazurka hendecasylaba (segundo)


… por tudo o que roça a minha existencia
-- Os livros, as flôres, as fôlhas que se abrem
Por entre a selva e as pernas que habito
Delirios de verso, solsticio do affecto

As cousas que falam da propria agonia
Não deixam em paz minha alma nocturna --
Miasmas gentis, primaveras sombrias:
São tão impossiveis que nunca os desejo

Taes paginas sôltas, sem prologo natas,
Dão voltas em tôrno de si, transparentes;
O eixo que as torna congruentes, no entanto,
Fermenta êste céu que ha em mim todo dia…

sexta-feira, 13 de agosto de 2004

PENSAMENTOS INCOMPLETOS em mazurka hendecasylaba (primeiro)

… pois soube que a vida não é passageira —
Lembrando, esquecendo, ficando sozinho:
Armou-se de vida, de morte e de pena
E foi com seu manto p'ra cima do vento.

O vento esbarrava em todas as fôlhas
Seu manto sem côr não guardou sua alma;
Olhou para o chão e, ao se ver pendurado,
Rezou mais um têrço por êste momento.

De têrço em têrço a vida desbota
A morte, contudo, se mostra bonita
O rhythmo ternario banniu sua pena
E trouxe, sem pressa, um pouco de alento…