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quarta-feira, 11 de abril de 2007

GRÁFICO AUTOPSÍQUICO (+ interseções)


GRÁFICO AUTOPSÍQUICO
(a Fernando Pessoa)

Fingido em si mesmo escreve
O poeta fragmentado
Por dor tal que não se atreve
Tocar seu eu eclipsado.

O que cala sua poesia,
Pelo bem deles, refletem
Uma e outra imagem fria —
Dentro em si, sem cor, competem.

O caminho é torturante
Duplo círculo mal feito
Sem tamanho, sem quadrante,
Um pulsar fora do peito.


INTERSEÇÕES DESEJÁVEIS HOMENAGEANTES
(com Fernando Pessoa, ortônimo: "Autopsicografia")

I.

O poeta é um fingidor: fingido em si mesmo escreve;
Finge tão completamente o poeta fragmentado
Que chega a fingir que é dor, por dor tal que não se atreve,
A dor que deveras sente tocar seu eu eclipsado.

E os que lêem o que escreve, o que cala sua poesia,
Na dor lida sentem bem, pelo bem deles, refletem
Não as duas que ele teve, uma e outra imagem fria,
Mas só as que eles não têm dentro em si, sem cor, competem.

E assim nas calhas de roda o caminho é torturante:
Gira, a entreter a razão, duplo círculo mal feito
Esse comboio de corda sem tamanho, sem quadrante,
Que se chama coração um pulsar fora do peito.

II.

Fingido em si mesmo escreve — o poeta é um fingidor —
O poeta fragmentado finge tão completamente,
Por dor tal que não se atreve, que chega a fingir que é dor
Tocar seu eu eclipsado a dor que deveras sente.

O que cala sua poesia e os que lêem o que escreve
Pelo bem deles refletem; na dor lida sentem bem,
Uma e outra imagem fria — não as duas que ele teve
Dentro em si, sem cor, competem — mas só as que eles não têm.

O caminho é torturante e assim nas calhas de roda,
Duplo círculo mal feito gira, a entreter a razão,
Sem tamanho, sem quadrante, esse comboio de corda
Um pulsar fora do peito que se chama coração.




(Imagem de James Walsh in deviantArt)

quarta-feira, 4 de abril de 2007

GÊNESE

... não havia nada para ser aspirado, só o Vazio. Do Vazio foi criado o grande Nada, e o Nada era bom antes de tudo, antes do universo inteiro, quando só havia os deuses mínimos: o Pastor do Vínculo, a Cabra feliz e o Javali ranzinza. O Amor entre eles gerou o Acaso e o Devir. O Devir menino amordaçou o Acaso e a ausência de sua voz permitiu que o maldoso Javali obrigasse a Cabra a pastar o Nada. Revoltado, o Pastor fez com que o Javali comesse os dejetos da Cabra e, um dia, o Javali opressor vomitou o Universo inteiro. Do Acaso amordaçado nasceram as Possibilidades e, do Devir, o primeiro deus máximo. Tudo era feio e insano até que surgiram as Estrelas quentes. Eram tão lindas e brilhantes e bondosas que em meio a elas vagavam e brincavam todos os deuses máximos. Um deles, Samiavast, invejou a luz das estrelas e começou a sugá-la para si. Então nasceram as primeiras Estrelas frias. As Estrelas ficaram tão tristes que decidiram ir embora: das suas lágrimas nasceram a Compaixão e a Vingança. A elas foi confiada a tarefa de criar a Vida e reparar o dano causado às Estrelas frias. As duas se beijaram lascivamente e, num jorro de pó e beleza, nasceram sobre as Estrelas frias as primeiras criaturas vivas: o Globo pulsante e o Fio de átomos — uma grande festa para dois! E depois surgiram as lombrigas, as lacraias, as lampreias, as salamandras, as cobras, as gaivotas e as toupeiras. Por último, o Macaco Mestiço. Quando ele apareceu, a Vingança deu seu único sorriso; dele se desprendeu uma gota de saliva que virou o Grande Ovo sem Gema. Aquecido pela Compaixão, o Ovo teve sua casca rompida pela Vingança e dele nasceu a Fome. Sem lugar no Universo, a Fome achou morada no único lugar vazio: a Alma dentro dos Macacos. De lá de dentro, a Fome ensinou os Macacos Mestiços, os Vingadores, a fazer muitas coisas: o Fogo, a Roda, o Chicote e o Deus Encadernado. O Fogo foi usado para cozinhar a Natureza; o Chicote, para domar os inocentes; a Roda, para procurar o que domar; e o Deus Encadernado inventou o Pecado. Muitas maravilhas foram construídas pelo Macaco Mestiço, mas ele, com medo do Pecado, obrigava a Natureza a comer seus dejetos. Um dia a Natureza oprimida resolveu ir embora: devorou a luz da última Estrela quente e vomitou o Vazio no Universo.
As almas famintas dos Macacos então morreram porque ... não havia nada para ser aspirado, só o ...




(Imagem de Nortiker in deviantArt)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

PENSAMENTOS INCOMPLETOS — PREFACIO

......ssão de uma alma intensa, de maneiras bruscas e intenções firmes e duma candura latente apenas, ingenua no grau e determinante na fórma. Algo imperativo como "escreve-me" seria mutilação textual a partir de golpes advindos de laminas duma realidade muito pallida: para escrever sobre ti, meu espírito tem de estar brincando de roda com êlle mesmo, volutas chronicas com sua imagem no espelho até cahirem os dois entes no relvado, e olharem para as estrelas e vel-as rodando e toccando musica do céo. E hoje, querido amigo, sinto orbitar o que na alma há que póde escrever, e isso folga e se ri — dia de escrever. Deixo livres meus olhos correrem pelas lettras genicas dos teus poemas e percebo o enlace dos fios de sêda dum lindo verme autodemiurgo. Cada um desses traços polymericos se faz cuspide quando almêja a intenção propria e se vérga para dentro do seu casullo novamente, donde haverá de ejectar-se em direcção a outro nó. E é esse o som que fazes daí de dentro do casulo: a voz inaudivel de todos nós na sua garganta de lagarta que és, falando do ôvo e da cova, e do sino que toca durante o processo que leva de um a outro. Nós, aqui do outro lado, progressivamente inermes e entregues, pomo-nos a consumir os acetinados enlaces nodulares da poesia que te revestes com enzymas curiosas e lentas, e pouco a pouco vemos-te lá dentro, em metamorphose obvia e absurda. Neste ponto, a este grau, lemos-te: côres cambiantes de quem amadurece, cheiro impar de quem se dá a descobrir-se. E por isso te somos gratos e francos pelos versos brancos ou não, vernaculos ou solecisticos. Tanto e tantas v......

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

PENSAMENTOS INCOMPLETOS — FRAGMENTO 02E.7D7/R

..... ilo, não acredito em nada mesmo, podes deixar, subindo ou não em arvores genealogicas para comer a mim mesmo na ponta, mas não posso deixar de reparar o quanto sigo em fluxo da mesma maneira, por cima ou por quem quer que seja, lavado em jôrro sacro de fragrancia tão viril mas tão pouco prospera, e escrevo pouco, é verdade, e te leio rouco ainda, ainda bem, ainda ....







(em resposta á publicação de António D. Lopes; imagem de Brian Hardison in deviantART)

domingo, 24 de setembro de 2006

PENSAMENTOS INCOMPLETOS — FRAGMENTO 10B.7D6/I

(durante conversa com Miguel)
..... ...ústica, porque não há corrente longa o bastante para fazer com que um poema se ancore n'alma .....
(imagem: MALIK, Maksim. Anchor the Second Version. pseudomuffin in deviantART http://www.deviantart.com)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

PENSAMENTOS INCOMPLETOS — FRAGMENTO 01E.7D6/I


(Incitatus a Διέγο Παληόλογος)

.....um tanto a cada vez em que me esquecia. Uma falta subita de calor congela, então, toda sombra viva e expõe o esqueleto incerto do unico universo valido. O desgaste minimo provocado por este retardo acrescenta alguns graus á nossa natureza divina — não por offuscar de eternidade mas por multiplicar vectores. Logo, a densidade de probabilidade se mostra cada vez mais lucida e a nuvem estructural aprisiona um numero maior de intenções: todas as funcções ejectivas se reaggrupam de modo a preencher o espaço agora menos flacido, e se mostram promptas para enlaçar vertices circumvizinhos.

Fico feliz comigo mesmo de descobrir a razão de ter feito o que fiz: de accôrdo com êstes meus calculos, não se tractou de nada mortal ou venial sequer, mas duma conjugação parcial do Verbo então — talvez a manifestação duma desinencia d'Êste somente. Que reacção mais torpe a minha, meu Deus, quando tentei repudiar a manifestação da Sua essencia, ora pro mihi peccatore. Ah, se soubesse que era tão violento o cogito ergo sum, nunca teria me colocad.....

sexta-feira, 1 de abril de 2005

EX CRETĀ


(Incitatus a Διεγο Παληόλογος in opera sua laterales: de prospectu obliquo)

Oiço a rede
e os gritos pescadores
costurando ondas de θαλάσσα (thalássa)

Acontece sempre
quando saem de mim
essas mulheres de Creta

Farfalhar dúbio
das que têm coragem
de nos mostrar as cobras

Da minha costela mais dura
nasce de mim essa mulher
que, apartada,
me chama de
vasto.

(mais mulheres de Creta)

terça-feira, 22 de março de 2005

VIÚVA


(Secundum Διεγο Παληόλογος in opera sua Quinque Vidŭae uel Quinque Fenestrae Ad Mortem)

... e não vi nenhuma das vezes em que a porra da andorinha entrou. Acho que eu estava virada para a parede, sendo lambida pelas caras de manjar branco desses papa-defunto-de-velório. Eu queria é estar fazendo feira agora, escolhendo abacate pra comer com açúcar quando chegar em casa, coçando o dedão do pé. Droga, a gelatina acabou e não fiz mais. Gente egoísta... Olham pra mim, o Delei mortinho-da-silva todo carbonizado no caixão, e dizem: "meus sentimentos, meus sentimentos..." Quero que vá todo mundo se foder com tanto sentimento. Eu sei o que é foder, o Delei me fodia e me fodia com gosto. Muito choro, vela pingando, fogo, gente gemendo baixinho, esse velório tá me dando uma tesão danada... Ah, Delei, e agora? Marido quente ainda no caixão e eu aqui pensando em foder, mas ué!: alguém tem que pensar! Outro homem na minha vida?? Só se for pra me foder muito! Dinheiro, não tenho. Não quero amolação de marido chegando com bafo de cachaça em casa: vai morrer pra lá — eu já enterrei um, não enterro outro. Nossa, tanta vela... tenho que ir na macumba pra jogar um búzio pra ver o panorama da situação... A Light vem cortar a luz na sexta se eu não pagar, vou pedir à Zezé uma grana pra pagar a luz esse mês — qualquer um vai ter piedade da viúva, vou deitar os cabelos. Puta que o pariu, tivessem cortado a luz anteontem tu não tinha morrido, Delei... Tu é um corno mermo.