Mostrando postagens com marcador novela. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador novela. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

AS ADJACÊNCIAS VITAIS — CAPÍTULO n+2, donde n+y=x

AS ADJACÊNCIAS VITAIS
blog-novela em x capítulos


CAPÍTULO n+2, donde n+y=x

No capítulo anterior, Saragurinha e Jaimunda acabam de cruzar com o caminhão onde trabalham Sodomito e Calupto; Calupto pára o pesado em frente a sua casa enquanto Sodomito vê, em seus devaneios, a imagem de sua amada.

Saragurinha passa saltitante pelos portões do colégio juntamente com Jaimunda que, apesar de trazer alegria estampada no semblante e pulsante no coração por ver seu amado Calupto, traz n'alma a preocupação quanto ao seu estado de saúde genética.

Os momentos em que vira Sodomito ficaram projetados mentalmente em Saragurinha: ficara tão excitada ao vê-lo de surpresa minutos antes que mal podia conter-se. Sua mente, porém, parecia fazer-lhe truques quando tentava refazer a cena em que sorrira para seu amado pois não era bem sucedida ao tentar refazer mentalmente as feições do belo rosto de Sodomito. Mas contentava-se com as vezes em que conseguia.

Passando pelo grande corredor central do prédio onde estudavam, Saragurinha avista Rimenaldo, irmão querido de Sodomito. Saragurinha se detém por um momento e observa-o passar perto dela. Ela lhe sorri e ele a cumprimenta com um gesto. Rimenaldo é tido quase como um garoto prodígio pela sua inteligência e pela brilhante capacidade de resolver problemas: era destaque em Filosofia, Física e Genética I. Rimenaldo ajudava a todos com os inteliquadros e outras questões técnicas menores. Era, por tudo isso, muito bem quisto entre professores, colegas e familiares: era aluno exemplar, um amigo para todas as horas e, claro, o orgulho de Cantinflas e Dominicéia.

Toca a sirene e todos entram para as salas de aula. Rimenaldo cumprimenta seu professor e senta-se. Conecta seu inteliquadro à rede e deixa-o de prontidão para escrever, anotar e receber informações pertinentes à aula. Assim que todos se sentam, o professor cumprimenta a turma:
— Bom dia, classe!
A classe o cumprimenta de volta animadamente:
— Bom dia, professor Tibúrcio!
Ele se volta para seu inteliquadro e acessa os arquivos necessários para a aula. Os arquivos estão em ordem crescente de grau de conhecimento e são enviados para os inteliquadros dos alunos à medida em que respondem questões relâmpago sobre o arquivo anterior, de modo a personalizar o processo de conhecimento. O arquivo seguinte é escolhido por um programa desenvolvido pelo próprio professor de modo que os alunos criam sua própria ordem de aprendizagem, enfatizando os assuntos que mais lhe agradam: o programa é sensível a cada resposta e a ordem e o conteúdo da aula em arquivos é moldado pelo grau de interesse de cada aluno pelos assuntos apresentados.
— Muito bem, classe; continuando o assunto anterior, alguém pode me explicar o que é o Animaliferador?
Os alunos hesitantes balbuciam entre si a resposta. Rimenaldo, no entanto, diz firmemente:
— É um ente biocibernético auto-regulado que gera todos os códigos genéticos das pessoas.
— Sim, muito bem!, exclama o professor. E continua:
— E por que dizemos que ele é biocibernético e auto-regulado?
Um silencio toma conta da classe por alguns segundos, e Rimenaldo, vendo que ninguém é capaz de responder, responde tranqüilamente a questão:
— Biocibernético porque é, ao mesmo tempo, um ser vivo e um computador; auto-regulado porque tem sua própria fonte independente de energia e sabe direcioná-la com o objetivo de manter sua integridade física e informacional.
— Muito bem, Rimenaldo!!

Enquanto isso, em outra classe mais adiantada, Saragurinha está em devaneios mas, por coincidência, o assunto também é Nife:
— Então, agora sabemos que Nife foi concebido a partir dos sobreviventes à Catástrofe. Todos sabem que estes sobreviventes habitavam o que hoje se chama Zona Neutra: nela as conseqüências da Catástrofe foram menos insidiosas e as pessoas conseguiram lá sobreviver aos eventos. Como a Catástrofe atingiu todos os habitantes do globo -- olhem para cá! -- desde aqui até aqui fazendo com que as condições de sobrevivência no planeta mudassem substancial e abruptamente, os cientistas tiveram que reprogramar geneticamente as plantas para que sobrevivessem às mudanças e, assim, puderam continuar se alimentando e, também, alimentar seus descendentes.
Os alunos parecem interessados na explicação e o professor continua:
— Para essa modificação foi primeiro criado Gife, o Vegetaliferador, e , posteriormente, Nife, o Animaliferador. Por meio de Gife todas as plantas tiveram suas estruturas modificadas e puderam ser readaptadas às novas condições. Vendo que os experimentos tiveram bons resultados, Nife foi concebido e criado, e, através dele, os animais tiveram suas estruturas geneticamente reprogramadas de modo a readaptá-los e servir para nossa alimentação.
Um colega de Saragurinha se mostra mais adiantado e fica curioso com a informação que se lhe apresentou em seu inteliquadro:
— Professor, o que foi a Fusão?
O professor responde satisfeito:
— Nife, na sua concepção primária, já pôde mostrar muito da sua inteligência e superou em muito a soma das capacidades mentais dos cientistas que o criaram. Nife, então, requisitou aos cientistas que seu organismo se fundisse ao de Gife para que, como um só, pudessem continuar a sua tarefa. Esse fato foi comprovado quando Nife, depois da Fusão, conseguiu fazer toda a reprogramação genética da raça humana e, a partir dela, pudemos habitar novamente as outras partes do planeta além da restrita Zona Neutra.

Saragurinha é despertada de seu devaneio com o bipe emitido por seu inteliquadro assim que foi atualizado com o próximo assunto. Assustou-se a princípio pois percebeu aí que perdera toda a explicação. No entanto tinha a segurança de ter cientistas na família: as irmãs de sua mãe, as três tias solteironas Isnara, Zuleima e Edelacira. Sabia que as três estariam passando pela cidade durante a viagem que faziam todos os anos rumo ao Sul onde a Festivália acontece todos os anos -- nos outros lugares a Festivália só acontecia bienalmente. Eram muito festeiras, gostavam muito de farrear, contar piadas sujas, dançar a linvira e beber muita cerveja de wilson. A última vez em que as vira foi durante uma Festivália... dançaram tanta linvira, pareciam três jacksons da floresta!

Saragurinha e Jaimunda saem juntas da sala quando toca a sirene anunciando o intervalo. Jaimunda desabafa:
— Sará, não agüento esperar. Depois desta aula sobre Nife e programação genética, sinto que minha angústia só acaba quando eu for até a conselheira genética da escola...
— Jai, se fosse comigo eu já teria ido: eu sei que não há de ser nada, não sei por que você não pensa o mesmo!
Jaimunda concorda e se sente um pouco mais aliviada:
— É, você tem razão, não adianta nada eu ficar me preocupando. Tenho que ir ainda hoje vê-la e acabar logo com essa dúvida.
Saragurinha faz um gesto positivo com a cabeça e fica contente por ter melhorado o estado de ânimo da amiga.

Enquanto isso, na casa de Saragurinha, Cantinflas escuta uma conversa animada de Dominicéia falando no telecom:
— Ai, que bom! E a que horas vocês chegam?
Cantinflas pára sua leitura e vai até ela, que parece estar muito feliz:
— Claro que não incomodam! Nós sempre esperamos vocês nesta época do ano!
Cantinflas percebeu que se tratava da visita anual de suas cunhadas solteironas. Pousa o largo inteliquadro doméstico sobre a mesa e se dirige à cozinha.
Dominicéia chega em seguida e exclama:
— As meninas estão chegando!
Cantinflas dá um sorriso irônico e comenta:
— Domi, se elas são meninas você é o que?, um feto?
Ela, no entanto, não se deixa irritar pela ironia do marido e pede-lhe para que prepare o prato preferido delas:
— Ah, querido, faz aquele risoto de alice com ervas antigas que só você sabe preparar...
Cantinflas pega rapidamente os utensílios que precisará para o preparo do prato enquanto responde-lhe ainda mais ironicamente:
— Você acha que uma xícara assim de cianureto dá?
Tamanha zombaria de sua parte é, no entanto, inteiramente chistosa já que tem por suas cunhadas um profundo respeito. Sabendo disso, Dominicéia emite apenas um muxoxo entre tantos sorrisos e põe-se a arrumar a casa. Da sala, comenta com o marido:
— Ai, a Saragurinha vai adorar saber que suas tias estarão aqui por esses dias!
Cantinflas aproveita e acrescenta;
— É sim, e também é bom pra elas ensinarem um pouco de Genética pra ela porque as notas dela têm vindo abaixo da média! É você mesma quem diz: "na idade de Saragurinha, as três já faziam seus experimentos científicos na Escola de Genética!"

Nesse momento, Saragurinha chega da escola e vai até a cozinha. Cumprimenta o pai com um beijo estalado:
— Oi pai! Cadê a mamãe?
Nesse momento escuta sua mãe cantarolando enquanto arruma o quarto de hóspedes. Seu pai só a olha e retruca:
— Onde você acha?
Saragurinha abre imediatamente um amplo sorriso, já adivinhando o motivo da cantoria da mãe, e sai em disparada ao encontro dela:
— Mamãe, mamãe!! A que horas elas chegam?
Dá em sua mãe um abraço apertado que quase a imobiliza em seus afazeres, e esta resmunga sorrindo:
— Sará! Chega! Me deixa trabalhar! O quarto tem que estar arrumado porque elas já estão quase chegando! Elas estão indo para o Sul, para a Festivália.
— Eu imaginei, mamãe! Eu sei que elas não perdem uma Festivália! Eu me lembro de quando elas se fantasiaram de neutrícolas! Adoro quando elas mostram fotos de Festiválias passadas, quando elas eram novas... elas eram lindas! Tem uma em que aparecem fantasiadas de estátuas antigas! Elas são muito divertidas!

Saragurinha vai até seu quarto levando o telecom consigo, larga seus inteliquadros sobre a cama e tecla com avidez o aparelho enquanto fecha a porta.
— Alô, é da McKallor? Gostaria de falar com Sodomito, por favor.
Saragurinha espera a telefonista localizar seu amado na seção de Preparação Criogênica enquanto se debruça abruptamente na cama, pondo-se a balançar impacientemente suas pernas no ar. Sodomito chega ao terminal onde está a telefonista e percebe que seu chefe está ao lado.
Uma voz máscula e firme atende o telecom do outro lado:
— Pronto, é Sodomito falando.
— Oiii! Tudo bom? Liguei por dois motivos.
Sodomito finge se tratar de um assunto profissional pois seu chefe está perto:
— Ahn, sim senhor Veneraldo, pode falar.
Saragurinha percebe a falta de privacidade em que se encontra Sodomito ao telecom:
— Eu sei, teu chefe deve estar aí... O primeiro motivo é que estava com saudades e o segunto, que devo me atrasar hoje porque minhas tias se hospedarão lá em casa. Talvez não dê pra nos vermos quando você sair do trabalho.
Sodomito fica tenso com a situação e responde-lhe:
— Ahm, tudo bem, é..., verificarei a disponibilidade dos componentes o quanto antes. Espero novo telefonema do senhor para informar-lhe quando poderei fazer a entrega.
Saragurinha conclui o telefonema adiando o encontro para mais tarde:
— Isso, Sodô, assim que eu puder sair te ligo e marcamos onde nos encontrar, está bem? Um beijo!
Sodomito quase não conseguindo mais fingir:
— Outro para o senhor, passar bem.
O chefe estranha a frase final de Sodomito e este, nervoso, tenta explicar-lhe:
— Ele é um amigo de infância do meu pai...
Sodomito sente seu coração palpitar como o de um zacarias das estepes... Nunca sentira por ninguém o que sente por Saragurinha; chega a colocar até a confiança que seu chefe tem em seu serviço só para ouvir a voz maviosa de sua amada.

Jaimunda acaba de sair do aconselhamento genético com uma lista de exames que deverá fazer. Ela sabe o destino de todos os que têm defeitos genéticos graves. Chegando em casa, liga para Saragurinha:
— Amiga, eu tenho que fazer um monte de exames... Tenho que ir ao ReproGen! Nunca tive de ir lá! A última vez que estive no ReproGen foi quando meus pais me tiveram!
Saragurinha fica penalizada com a situação da amiga e tenta confortá-la mais uma vez:
— Ai amiga, de vez em quando somos aconselhados a ir ao ReproGen... Você não lembra quando a Rúmia teve que ir? Ela também precisou fazer um monte de exames e tal, e no fim das contas ela não tinha nada!
As lágrimas escorrem pela face de Jaimunda, molhando a área do telecom que fica perto da boca:
— Sará, eu sinto minhas costas inchadas também, bem aqui atrás dos ombros, nas escápulas... o que será isso?
Saragurinha fica consternada e não sabe mais o que aconselhar:
— Amiga, eu vou hoje ver o Sodomito mas antes passo aí pra te ver, está bem assim? Fica tranqüila que tudo vai dar certo.
Enquanto isso ouve a campainha tocar:
— São minhas tias! Jai, eu tenho que desligar agora mas me espera que chego aí mais tarde. Um beijo, até mais! E fica tranqüila!
— Um beijo, amiga, obrigada, vou tentar ficar mais calma. Te espero!

Saragurinha olha pela janela de seu quarto e vê suas tias estacionando o carro. Troca rapidamente a blusa do uniforme e vai correndo até a porta da frente. No caminho encontra sua mãe e grita-lhe:
— Mamãe, são elas!
As duas correm em direção à porta da frente e escutam as vozes das três do lado de fora. Cantinflas vem logo atrás em passos não tão ligeiros. Ambas se olham felizes e abrem a porta. Lá estão elas em seus trajes da Região Norte; as cinco se entreolham e as irmãs exclamam escandalosamente:
— Tchã-raaaaaam!

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

AS ADJACÊNCIAS VITAIS, CAPÍTULO n+1

AS ADJACÊNCIAS VITAIS blog-novela em x capítulos

CAPÍTULO n+1, donde n+y=x

No capítulo anterior, Sodomito se recolhe aos seus aposentos com uma foto de Saragurinha que tirou de seu recado no telecom.

Dominicéia, mãe de Sodomito, volta da cozinha onde encontrou seu filho em devaneios com a foto de Saragurinha em suas mãos. Preocupada, vai até a sala e encontra Litóvão, seu esposo, decifrando as instruções da abelha de controle remoto que Rimenaldo ganhara de seu irmão naquela noite. Rimenaldo é um menino muito inteligente, aprendeu a operar seus inteliquadros sozinho, passando a ensinar a todos os seus colegas na escola. Insistindo muito com seu pai, consegue reaver o controle remoto do inseto artificial, juntamente com o manual de instruções: está muito contente por ganhar algo que causará inveja e admiração junto a seus amigos. Litóvão percebe a perturbação n'alma de sua esposa, aborda-a e abraça-a gentilmente, como fazem os osvaldos nas copas das grandes árvores:
— O que te preocupa, minha querida?
— É o Sodô... Você já percebeu como anda distante, sonhando acordado pelos cantos? Fiquei sabendo que foi repreendido no trabalho por estar desatento. Parece que hoje descobri a causa. Por Nife!! Tenho até medo de te falar...
— Diga logo, mulher!
— Ele está enamorado... antes fosse por qualquer outra garota da sua idade fenotípica, mas o destino tão cruel o colocou diante de ninguém menos que Saragurinha...! Litóvão imediatamente faz uma boca torta, com ares de não ter a mínima idéia do que se trata:
— E o que é que tem isso?
Dominicéia, com a boca trêmula e os olhos umedecidos pela angústia de ser a portadora de tal informação, olha bem nos olhos de Litóvão e diz baixinho:
— Você não sabe quem é a Saragurinha, Lili? Ai, por Nife, ela é filha de Cantinflas e Girolana...
Litóvão fica prostrado por alguns segundos, contudo abre um enorme sorriso depois disso e entre risadas tenta consolar Dominicéia:
— ahHahaHAH! Ah, Domi, você não sabe como são os jovens? Já se esqueceu?... Isso é passageiro. Sodô é muito menino ainda, tem muito pela frente! Encontrará muitas outras garotas até achar aquela com quem se casará...! E terá muitos filhos a partir de então! A programação familiar que a genética proporciona hoje será ainda melhor no futuro!
Dominicéia, no entanto, não se põe menos preocupada e comenta:
— É exatamente disso que eu estou falando, Lili: genética... Você SABE o que Cantinflas e Girolana estavam fazendo no Reprogen vinte anos atrás, época em que tínhamos programado Sodomito.
Litóvão, com um ar bonachão que lhe era peculiar, insiste tranqüilamente:
— Não é nada pra se preocupar, querida! Sodô é muito novo, é um rapaz muito bonito, muito sacudido, tem um futuro na empresa onde trabalha, o que não faltará são garotas atrás dele muitas ainda mais interessantes que essa tal Saragurinha!
Dominicéia se mostra menos aterrorizada mas mantém ainda, no firme semblante de uma formosa mulher madura, a preocupação de que algo de sério possa acontecer entre seu amado filho e aquela com quem seus genes não poderiam se encontrar.

No dia seguinte, Saragurinha acorda feliz e se encontra com a família na cozinha. Girolana está em pé fazendo o que Cantinflas mais gosta de comer pela manhã: omelete de ovos de olga com tiras defumadas de carne de anderson. Corre até sua mãe dando-lhe um beijo estalado, fazendo o mesmo depois com seu pai. Sua mãe lhe sorri e seu pai resmunga um pouco, limpando a bochecha onde Saragurinha dera um beijo molhado.
— Bom dia!
Sua mãe olha para trás e pergunta-lhe o que gostaria de comer:
— Minha filha, você quer omelete também ou preparo outra coisa pra você?
Saragurinha está apressada para ir ao colégio e não parece estar com fome:
— Não quero nada, mamãe! Vou tomar um copo de leite só!
— Então toma leite de milena porque alimenta mais, e deixa o leite de sérgio pra eu cozinhar...!
Saragurinha não parece escutar, põe leite no copo até a boca e o sorve rapidamente. Limpa a boca no avental de Girolana e se vai.
— Tchau mãe, tchau pai! Até mais!
Ao ver Saragurinha sair pelo corredor, grita:
— Que isso, minha filha!!...
Seu pai só olha por cima dos ombros e brada:
— Estuda direitinho, hein? Juízo! Volta DIRETO pra casa!

Do lado de fora da escola, a sorridente Saragurinha encontra-se com Jaimunda: ela está absorta ao perceber uma menina entrando na escola com trajes muito pouco convencionais. O sorriso de Saragurinha se desmancha ao seguir o olhar de Jaimunda e passando a focalizar a triste menina. Saragurinha percebe que Jaimunda está preocupada com alguma coisa:
— Que foi, Jai? É a garota? Tadinha... Por que ela está usando roupa isolante?
Jaimunda baixa os olhos e diz o que sabe sobre o caso:
— Ah, Sará... sei que ela apareceu com um problema genético... Me parece que começou a crescer um terceiro pulmão nela...
Saragurinha, sempre irônica, comenta:
— Melhor pra ela!
— Você acha, Sará? Olha lá, ela está calafetada, sem contato direto com o mundo!...
A reação exagerado de Jaimunda em relação ao assunto desperta-lhe a curiosidade:
— O que foi, Jai? Por que você tá preocupada?
Jaimunda aponta para os cotovelos e os mostra a Saragurinha:
— Notei ontem que meus cotovelos estão inchados... Passa só a mão. Tô com medo de ser algum problema genético... Você sabe que todos nós estamos sujeitos a isso... Você se lembra daquele menininho que teve o fenótipo adiantado de 3 para 70 anos de uma hora pra outra?
Saragurinha passa ligeiramente as mãos sobre os cotovelos da amiga e põe-se a animá-la:
— Que isso, Jai!! O Animaliferador já estava numa versão adiantada quando fomos programadas, estamos livres de um monte de problemas!
— É, mas olha a garotinha: o fenótipo dela é mais novo que o nosso e surgiu esse problema nela... Imagino o que pode nos afetar e nem sabemos... Não quero virar uma aberração genética!!
Procurando colocar um fim naquele assunto mórbido, Saragurinha a admoesta conclusiva porém animadoramente:
— Então procura o Aconselhamento Genético da escola e pára de ficar pensando besteira!
Retomam o passo em direção à escola. Ao atravessarem a rua em direção ao portão, as duas amigas têm uma bela surpresa: Sodomito e Calupto no caminhão da empresa lhes acenam de dentro da cabine. As duas ficam tão estupefatas pela surpresa que são advertidas pelo guarda de trânsito para se moverem dali. Acenam em resposta aos gracejos dos dois mancebos e correm ao outro lado da rua onde está o portão da escola. Entram saracoteando enquanto o guarda as observa.

Dentro do caminhão de entrega, esperando a luz verde do sinal, Calupto puxa papo com Sodomito acerca de Saragurinha:
— E aí? Tá apaixonado?
— Olha, rapaz, acho que nunca senti por outra o que sinto por Sará... Não consigo parar de pensar nela nem um minuto!
— É... quem diria? Sodomito apaixonado!! Você que nunca se importou com isso!
— Não sei o que acontece, Calu. Desde a primeira vez que vi a Sará fiquei vidrado, isso nunca me aconteceu antes!
O sinal abre e Calupto arranca com o pesado. A conversa continua:
— E você já conhece os pais dela?
Sodomito relembra o tratamento rude dispensado a ele durante a última ligação para Saragurinha, e responde:
— Ah cara... o pai dela é durão... tô criando coragem ainda.
— É normal, deve ser ciúme de pai: a Saragurinha é linda, ele deve ser o tipo de pai que quer o melhor para a filha, dá pra entender isso só de olhar como ela é sarada...!
— Ô rapaz, você já tem a tua, olha a brincadeira errada...
Calupto sorri fazendo um sinal com a cabeça indicando que se tratava de uma brincadeira somente. Ao dobrar uma rua, Calupto pára o caminhão numa vaga, abre a porta e diz a Sodomito:
— Vou dar um pulinho aqui na loja ao lado, deve ter chegado uma encomenda pra mim. Enquanto Calupto está fora, Sodomito relembra a imagem de Saragurinha acenando para ele enquanto atravessava a rua, com um amplo sorriso em seu lindo rosto e um brilho intenso em seus olhos. Calupto abre a porta e adentra a cabine e a fecha com um arranque do veículo.
— Calma, cara, que isso! — diz Sodomito assustado. Calupto está excitado com o pacote que trouxe:
— Tenho que passar em casa rapidinho pra deixar isso aqui!
Sodomito lhe pergunta sobre o conteúdo do pacote. Calupto lhe responde ainda excitado pela aquisição mas com ar receoso quanto à aprovação do amigo:
— São os restos de unha que encomendei. Eu faço coleção de restos de unhas cortadas. Essas daqui são as mais raras e antigas que consegui comprar: são cacos de unhas de dedos mínimos duma tribo tavisni! Eles só cortam essas unhas a cada cinco anos! Vale um dinheirão no mercado de fontes genéticas!
Sodomito faz um ar de reprovação mas não deixa Calupto perceber o quanto ficou enojado com o conteúdo do embrulho.

Enquanto se dirigem à casa de Calupto, Sodomito fica repassando cada fração de segundo da visão de Saragurinha lhe acenando, como se já tivesse vivido aquela situação. Algumas vezes ele tenta se relembrar de todos os detalhes mas lhe foge o conteúdo do rosto de Saragurinha em sua mente, e tudo o que ele vê é o corpo perfeito de uma garota sem rosto que simplesmente passa e lhe sorri...

sábado, 20 de agosto de 2005

AS ADJACÊNCIAS VITAIS, CAPÍTULO n

AS ADJACÊNCIAS VITAIS
blog-novela em x capítulos

CAPÍTULO n, donde n+y=x



 

No capítulo anterior, Saragurinha está na escola e escuta a sirene. Na correria em direção ao portão, encontra Jaimunda com que troca beijos:
— Jaimunda do céu, estava pensando o tempo todo hoje em você! Estava experimentando uma roupa térmica na confeitaria quando vi Calupto dirigindo o caminhão da McKalor! Não sabia que ele estava trabalhando como motorista!
— Ah é, menina, ele foi promovido! Saiu da seção de abastecimento criogênico, graças a Nife!
— Que bom, então! Estava doida pra te ver e te contar!

Entra em casa saltitante como sempre, jogando o inteliquadro no sofá. Cumprimenta seu pai, Cantinflas, que a olha de esguelha de onde está, voltando logo à sua leitura. Cantinflas descobriu a poucos dias atrás da paixão de Saragurinha por Sodomito e desde então a trata friamente. Saragurinha dá de ombros e se dirige à cozinha onde encontra sua mãe tirando a ração do esquentador.

Oi mamãe! Estou morrendo de fome!
Senta-se à mesa e indaga à sua mãe o motivo da recente mudança no tratamento de seu pai em relação a ela:

Mamãe, o papai está chateado com alguma coisa? É comigo?
Sua mãe, Girolana, responde-lhe tentando disfarçar:
Ah filha, você sabe, o papai é muito ocupado, com certeza é alguma coisa do serviço.
Saragurinha se satisfaz com a resposta e põe-se a comer.
Minha filha, pode pegar o refresco de jânio que está na geladeira.

Enquanto a filha está ocupada na cozinha, Girolana disfarça e vai até a sala, sentindo que Cantinflas quer-lhe falar.
Lana, não sei como me comportar! Como vou dizer a Saragurinha quem pode ser esse menino! Você sabe de quem ele é filho, não sabe?
Girolana, aflita, lança um olhar perdido para o tempômetro:
É claro que eu sei, Tim! Pelo Nife sagrado, você não acha que devemos contar-lhe sobre isso?
Ainda não, minha querida... Esperemos mais um pouco para ver no que dá esse interesse: torço veementemente para que isso não dê em nada.

Na vizinhança oposta, Sodomito acaba de sair da McKallor, onde também trabalha Calupto, namorado de Jaimunda, e se dirige à Confeitaria Selene onde toma quotidianamente uma cerveja de wilson depois do expediente . Seu amigo Fulípio chega de súbito e cumprimenta-o com um tapinha nas costas:
Grande Sodô! Como é que tá? Pelo jeito está bem... fiquei sabendo do sentimento que tá rolando aí entre você e a Sará! Pô, rapaz, se eu tivesse essa sorte... mas não: só pego bagulho! Eu pareço até lista de classificador de refugo genético!
Ô rapaz, sei não... Ela parece que tá arrastando a maior asa pra cima de mim, isso é verdade! Mas não tem nada certo, não. Vamos ver como fica a situação depois do fim de semana.
Fulípio se despede do amigo sorridente e se vai.

Sodomito paga a conta se vai logo depois. Chega em casa com um embrulho e encontra sua mãe, seu pai e seu irmão brincando de Hospital Geral. Tinha sido aniversário de Rimenaldo, o caçula, mas Sodomito estava se encontrando com Saragurinha na porta da escola e, por isso, não compareceu à festinha.
Tudo bom, maninho? Pensou que eu tinha me esquecido do teu aniversário?
Sorri para o irmão e dá-lhe o embrulho. É uma linda abelha de controle remoto que Rimenaldo sempre sonhou.
Obrigado!!! Puxa-vida!
O menino não tem palavras para agradecer o gesto do irmão e põe-se imediatamente a operar por controle remoto o inseto voador.
Encontra-se com sua mãe no corredor:
Sodô, tem um recado pra você no telecom.
Era uma mensagem de Saragurinha, dizendo-lhe que foi muito bom encontrá-lo na porta da escola e tomar sorvete de orlando enquanto passeavam pela alameda. Tomado pela emoção, resolve contactar Saragurinha, mas quem atende o telecom é Cantinflas, seu pai:
Oi seu Cantinflas! A Saragurinha está?
Não, ela saiu e desliga abruptamente o telecom na cara de Sodomito. Intrigado pelo comportamento de Cantinflas, Sodomito imprime uma imagem de Saragurinha no telecom e a leva consigo para a cozinha onde pega um copo de leite de milena.
Sua mãe adentra e o vê à mesa:
Sodô, já não te falei que o leite de milena é pro teu irmão?!
Sodomito, no entanto, não esboça reação e mantém seu olhar perdido enquanto segura a foto de Saragurinha. Dominicéia, sua mãe, percebe o motivo do ensimesmamento de Sodomito e o deixa só com seus pensamentos. (continua)